Aldeia do Juízo - Pinhel - Guarda - Portugal © Viaje Comigo Aldeia do Juízo - Pinhel- Guarda - Portugal © Viaje Comigo
Publicado em Setembro 6, 2019

Como foi viver um mês na Aldeia do Juízo (Casas do Juízo)

Centro/ Notícias/ Portugal [ Aldeia do Juízo ]

Já o disse noutros textos, que estão aqui no Viaje Comigo, que há relatos que só conseguimos escrever com um certo distanciamento. E este, sobre a minha estadia durante um mês nas Casas do Juízo, na Aldeia do Juízo (Pinhel, Guarda, Portugal), precisou de bastante tempo de reflexão. Mas, sobretudo para vos dizer que não consigo aconselhar-vos melhor local para irem descansar, para visitarem e explorarem o interior de Portugal.

E também já tinha escrito aqui, depois de duas semanas a viver nas Casas do Juízo, que o mais difícil é pararmos e relaxarmos. Tomámos tudo o que temos como garantido e não damos valor às pequenas coisas… boas do dia-a-dia. A comparação pode parecer-vos tonta mas, nos últimos dias naquela região, olhava para tudo com a certeza que ia sentir falta, que ia ter saudades…. daquela acalmia, daquelas paisagens, de me cruzar com pastores, dos bons dias alegres de todos, de ter produtos vindos diretamente daquelas terras, do vento quente de fim de tarde, do pôr do sol, da simpatia de todos os que me acolheram. E tenho saudades… tantas que já estou a planear o meu regresso!

Aldeia do Juízo - Pinhel- Portugal © Viaje Comigo

Aldeia do Juízo – Pinhel- Guarda – Portugal © Viaje Comigo

As Casas do Juízo são muito mais do que um mero alojamento numa aldeia… elas deixam-nos viver o ambiente rural, genuíno, e estamos rodeados por uma beleza natural inigualável.

– “Então, o que fizeste hoje?”, perguntavam-me os amigos ao telefone.
A passagem pelas Casas do Juízo foram também de trabalho, por isso, passava grande parte do tempo ao computador. Mas tinha a melhor vista, da janela do meu quarto, para os campos e para a Aldeia do Juízo. E porque nem tudo é trabalho nesta vida, as Casas do Juízo são dinamizadoras de diversos programas que fazem a aldeia ganhar uma nova vida.

Aldeia do Juízo - Pinhel - Guarda - Portugal © Viaje Comigo

Aldeia do Juízo – Pinhel – Guarda – Portugal © Viaje Comigo

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– “Então, o que fizeste hoje?”, repito porque mo perguntavam quase todos os dias.
– Acordei antes das 7 da manhã e são agora 13h… ajudei a fazer a massa do pão, a amassar o pão, a levá-lo para o forno, a acender o forno… Fiz isso tudo e não fiz nada, porque quem arregaçou as mangas foram as senhoras e senhores da aldeia. Eu quase só vi, porque estava a filmar e a fotografar tudo. “Um dia destes já ninguém sabe fazer isto, ao menos fica o vídeo de recordação”, refletiu alguém lá do meio.

“Fazer o pão desta forma já é coisa do passado”, recorda José Guerra, responsável pelas Casas do Juízo e por grande parte da nova vida de habitações da aldeia. O vídeo que podem assistir acima, da confecção do pão, só existe porque as Casas do Juízo organizaram tudo de forma a recordar estas lides das gentes do campo. É que… pão não falta! Apesar da Aldeia do Juízo ter só 15 habitantes permanentes, há pelos menos três padeiros que passam aqui, em alguns dias da semana, a buzinar freneticamente nas suas carrinhas que trazem pães, bolos e biscoitos.

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Pôr do sol – Aldeia do Juízo – Pinhel – Guarda – Portugal © Viaje Comigo

No meu T1, onde vivi durante um mês nas Casas do Juízo, tinha televisão… liguei-a umas três vezes, no máximo. É que havia sempre coisas mais interessantes para fazer, nem que fosse ir até ao largo juntar-me, no banco, às senhoras da aldeia e falarmos de tudo e de nada. Porque é que temos sempre a ideia de que estar na aldeia é estar onde não se passa nada? Durante o mês que estive nesta região centro interior havia eventos e festas em todas as localidades. Talvez no inverno seja mais parado… acredito… mas no verão, difícil é escolher onde ir.

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Vista da Aldeia do Juízo – Pinhel – Guarda – Portugal © Viaje Comigo

Todos os dias dizia para mim mesma, vou ter tantas saudades deste calor… de nunca ter de usar casaco, nem à noite; de não ter de secar cabelo… bastava ao vento, numa voltinha pela aldeia, ficava seco… Ah claro, eu trabalho num computador pela fresquinha da casa; se tivesse de trabalhar no campo, ou andar pela rua pela hora de maior calor, tinha uma opinião diferente. Em certos dias de julho, estiveram 40 graus… até parecia que o sol picava na pele e era impossível, partir das 10h30, andar pela rua a não ser pelas sombras da aldeia. Durante o verão, a azáfama dos campos começa mal o sol aparece, ainda de madrugada, para se trabalhar quando ainda está fresquinho… a meio da manhã, quando o calor começa a a apertar, as pessoas e os animais começam a recolher aos locais mais frescos.

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Era tanto o calor de verão que, numa semana, as hortênsias que a D. Adélia cuida ficaram queimadas. “E reguei sempre”, disse-me. Mas, não há como fazer frente ao calor…. também os cravos da D. Isabel queimaram e o feijão começou a ganhar fio. Tudo por causa do calor. Ainda me lembro da frase que alguém disse no dia em que acendemos o forno comunitário para cozer pão: “no verão é melhor ser taberneiro que forneiro”. Ainda a propósito do calor e frio extremos que aqui se sentem, alguém também me brindou com esta piada: “a Guarda tem três estações: a de verão, a de inverno e a estação de comboios”.

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D. Adélia e as hortênsias – Aldeia do Juízo – Pinhel – Guarda – Portugal © Viaje Comigo

Apesar de todo o romantismo de se estar a viver durante um mês no interior do país, e principalmente numa aldeia tão pequena, sou pragmática demais para perceber e sentir as dificuldades. Não há um hospital ou médico próximos e para mim que, no Porto, tenho dois supermercados à porta de casa… aqui nem um café existe. Na Aldeia do Juízo, alguém que precise de levantar dinheiro, tem de fazer quilómetros até Pinhel. Vai que o Multibanco nos come o cartão, fazemos quilómetros para ir tratar no banco…. na Guarda. Num dos dias apetecia-me mesmo um gelado, mas era preciso meter-me no carro para o ir buscar… ou tive de pedir a amigas que se iam juntar a mim para me trazerem pastilhas elásticas ou água com gás que me tinha acabado… Para os habitantes isso já não são problemas e está tudo controlado. O pão vem à porta, os congelados também e pelo menos uma vez por semana vão a Pinhel fazer o grosso das compras e tratar de coisas e papeladas. Os legumes e frutas? Vem tudo dos campos que estão ali… todos os dias tinha ovos fresquinhos das galinhas e sempre legumes frescos para a salada e as frutas que estavam a amadurecer nas árvores. Que luxo que era!

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Carrinha do pão – Aldeia do Juízo – Pinhel – Guarda – Portugal © Viaje Comigo

Pela Aldeia do Juízo ainda são muito visíveis os cortelhos (lugar onde se guardavam os animais) e os poleiros, feitos de pedra, para as galinhas. Há até uma Travessa dos Poleiros, com que se brinca “Agora ficou vazio porque diz-se que foram todos para o Parlamento”. 😀

Desde miúda que sentia uma grande inveja dos meus amigos que diziam que tinham família na aldeia. A sério. Chegava o verão e todos desapareciam, porque iam passar um mês ou mais para a aldeia. E eu ficava retida na cidade… Agora, mesmo sem ter raízes familiares nesta região, tenha a sensação de que sempre me senti em casa nas Beiras. E sinto-me já parte da Aldeia do Juízo.

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D. Maria – Aldeia do Juízo – Pinhel – Guarda – Portugal © Viaje Comigo

Como vocês já saberão, a vida no campo não é fácil, mesmo hoje em dia. Mas, antigamente era mesmo uma verdadeira dureza. Ainda entre 1950-1960 – não há muito tempo, portanto – havia aqui casas com chão de terra batida. Eram pequenas casas, de uma só divisão, onde vivia uma família com cinco filhos. Os pais dormiam junto do local que servia de cozinha… e os miúdos? Dormiam junto dos animais.

Dizem-me, com uma certa nostalgia, “eram tempos difíceis há uns anos… com trabalho de sol a sol e quase não havia o que comer”. Pegava-se no pão para se pôr um “peguilho” (ou apeguilho), ou um pedaço de alguma coisa e não havia carne, nem queijo. “Faziam-se sandes com azeitonas… e, mesmo assim, cortavam-se as azeitonas aos pedaços para render mais”.
E por isso havia quem dissesse, a quem ia com a bucha pela rua:
– “Vais a comer na rua?”
– “Mais vale comer na rua, do que passar fome em casa”.
E a fome era uma realidade, aqui.

Quando damos uma volta à Aldeia do Juízo, com o Sr. José Guerra, dono das Casas do Juízo e dinamizador de várias ações que perpetuam os usos e costumes da aldeia (como o fazer o pão à moda antiga ou a malha do centeio, por exemplo), diz-nos que “aqui, havia muitas maternidades”. Toda a gente nascia em casa e ali está também a casa onde nasceu.

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Lagar-museu – Aldeia do Juízo – Pinhel – Guarda – Portugal © Viaje Comigo

Nesse passeio que se faz pela aldeia, é possível visitar a Capela Senhor do Bom Despacho. É privada e estava junto da Casa do Juiz, onde agora estão Casas do Juízo e a Taberna do Juiz. O Cristo é feito em granito, mas não se sabe ao certo da data. Estava tudo ao abandono e foi com o impulso das Casas do Juízo que muito do património arquitectónico da aldeia foi recuperado. Nas fotos do antes, consegue-se perceber bem as grandes intervenções que aqui foram feitas. Mas, ainda falta recuperar muito casario.

Aldeia do Juízo - Pinhel - Guarda - Portugal © Viaje Comigo

Antes e depois da Capela – Aldeia do Juízo – Pinhel – Guarda – Portugal © Viaje Comigo

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Por estamos numa aldeia, é muito frequente alguém soltar a expressão “estamos no meio do nada”. Mas não o digam perto de Daniela, uma das responsáveis pela Taberna do Juiz, que conhece as redondezas como a palma da mão: “No meio do nada? Não! Estamos, sim, no meio de tudo”, diz Daniela, “muito perto de cinco Aldeias Históricas de Portugal, a um salto de Espanha e entre dois locais que são Património Mundial da UNESCO (o Douro e Foz Côa)”. E a verdade é que a Aldeia do Juízo está quase tão distante de Lisboa, como de Madrid… e esta hein? Boas viagens!

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