Lisboa, Palácio Chiado: a história de um palácio onde hoje se come e se brinda
Conta a História que aqui se faziam grandes festas e ainda à luz da vela, Atualmente, o Palácio Chiado manteve o seu charme histórico e a decoração pensada para criar um ambiente distinto.
Quem entra hoje no número 70 da Rua do Alecrim, em Lisboa, encontra um restaurante, bares, cocktails, música e uma programação que se prolonga noite dentro. Mas, antes disso, encontra um edifício com quase dois séculos e meio de história, conhecido durante muito tempo como Palácio Quintela.
Aqui já houve aristocratas, festas, banquetes, ocupações militares, grandes fortunas, colecções de arte e até um dos homens mais excêntricos da Lisboa de Oitocentos. Hoje há cozinha criativa e saborosa, cocktails e DJs.
A mudança de protagonistas é grande, mas a tradição de fazer deste lugar um espaço de encontro e de celebração é que parece ter ficado.



O palácio mudou, mas não perdeu a imponência
Ao longo do tempo, o edifício teve diferentes utilizações. Entre 1873 e 1874 funcionou ali o Grémio Literário. Mais tarde teve outras ocupações e instituições passaram pelo espaço. O edifício acabou por ser classificado como Imóvel de Interesse Público, em 1938.
A recuperação mais recente começou em 2014, quando o antigo Palácio Quintela foi preparado para uma nova utilização.
O projecto procurou preservar elementos importantes do edifício, nomeadamente pinturas e vitrais. A intervenção arquitectónica foi assinada por Frederico Valsassina e a decoração ficou a cargo da arquitecta Catarina Cabral. Em 2016, abriu o actual Palácio Chiado.
Foi uma mudança de função, mas não uma tentativa de apagar o passado. A escadaria, os elementos decorativos e as salas continuam a ser parte importante da experiência de quem chega ao restaurante. É uma entrada grandiosa!

Um palácio com uma nova vida
O mais interessante no Palácio Chiado é que a actual utilização não tenta esconder aquilo que existia antes. Pelo contrário.
A história do Conde de Farrobo transformou-se no nome de uma noite. As antigas festas deram lugar a cocktails e DJs. A tradição dos banquetes sobrevive, de outra forma, à mesa do restaurante. E as salas que testemunharam diferentes períodos da história de Lisboa continuam a receber pessoas.
Há, naturalmente, uma grande diferença entre um banquete oitocentista e um jantar onde se escolhe entre um confit de bacalhau, um tataki de atum, um Bife à Barão ou um corte de Wagyu.
Mas há uma linha que permanece: o Palácio Chiado continua a ser um lugar de convívio e para comer, beber, conversar e celebrar.

A HISTÓRIA
A história do Palácio Chiado começa antes do palácio
O edifício que actualmente conhecemos como Palácio Chiado foi erguido em 1781, mas a história do lugar é anterior.
Em 1726, um violento incêndio destruiu a construção que existia no local. Só décadas depois, em 1777, Luís Rebelo de Quintela adquiriu os terrenos onde se encontravam as ruínas. A construção do palácio viria a acontecer poucos anos mais tarde.
O nome Quintela ficou associado ao edifício e à família que ali viveu. Mas seria um descendente, Joaquim Pedro de Quintela, quem acabaria por dar ao palácio uma das suas histórias mais curiosas.
Nascido no edifício da Rua do Alecrim em 1801, viria a tornar-se o 2.º Barão de Quintela e 1.º Conde de Farrobo.
O seu gosto por festas e grandes banquetes tornou-se lendário e está na origem da associação do palácio à palavra “farrobodó”. O termo passou a ser utilizado para designar uma festa ou reunião marcada pelo excesso e pela animação.
É uma história particularmente curiosa quando se percebe que, mais de 200 anos depois, o nome Farrobodó continua vivo no Palácio Chiado. É também o nome dado à noite que acontece no actual Bar SALLA e o nome de um dos seus cocktails!

Quando Junot viveu no Palácio Quintela
Outro episódio pouco habitual aconteceu durante as Invasões Francesas. Em 1807, o general Jean-Andoche Junot instalou no Palácio Quintela o seu quartel-general e residência oficial durante a primeira invasão francesa. Permaneceu em Lisboa durante cerca de nove meses.
Segundo a própria história do palácio, o modo ostensivo como Junot viveu durante esse período esteve na origem da expressão “à grande e à francesa”.
Enquanto a população enfrentava as consequências da invasão, Junot instalava-se num dos palácios da cidade e mantinha uma vida marcada pela ostentação.

O palácio do Barão de Quintela e Conde de Farrobo
A história da família Quintela acabou por ficar profundamente ligada à vida social e cultural de Lisboa.
Joaquim Pedro de Quintela, o Conde de Farrobo, era conhecido não apenas pela sua fortuna, mas também pelo seu interesse pelas artes. O palácio tornou-se palco de festas e encontros da elite lisboeta.
Depois da morte do Conde de Farrobo, em 1869, a situação financeira da família deteriorou-se. O palácio acabou por ser vendido em hasta pública em 1874. Foi comprado por Francisco Augusto Mendes Monteiro, que tinha feito fortuna no Brasil.
É aqui que entra outra personagem fascinante desta história: o filho, António Augusto Carvalho Monteiro, conhecido como Monteiro dos Milhões.
E se este nome lhe soa familiar, há uma razão. É que Carvalho Monteiro foi o homem que mandou construir a Quinta da Regaleira, em Sintra, juntamente com o arquitecto e cenógrafo italiano Luigi Manini.
Mas a Quinta da Regaleira não foi o único lugar onde deixou a sua marca.
No Palácio Quintela reuniu uma biblioteca e importantes colecções de arte e de ciências naturais. Entre elas encontravam-se colecções de entomologia, malacologia, ornitologia e um herbário. A sua colecção de borboletas tinha milhares de espécies e a colecção de moluscos rondava as 10 mil espécies.

O restaurante do Palácio Chiado
O restaurante fica no piso superior, depois da escadaria. A cozinha actual não tenta reproduzir uma suposta “cozinha de palácio”. A carta é bastante livre: há pratos portugueses, mas também influências asiáticas, técnicas contemporâneas e combinações que não seriam propriamente imagináveis numa mesa aristocrática do século XIX.
A própria casa descreve a sua proposta como uma cozinha que cruza sabores tradicionais de diferentes partes do Mundo com uma abordagem contemporânea. E a carta, que está actualmente disponível, confirma isso.
Nas entradas há desde ostra nacional ao natural a panipuri com tártaro de atum, passando por taquito de lagosta, tiradito de lírio e camarão salteado com guanciale e malagueta.
E, sim, a refeição pode ser feita só através desta deliciosas entradas. Eu provei umas quatro diferentes! Mas também há espaço para produtos e sabores portugueses.

Entradas
A carta apresenta:
- Gourmet House Caviar Imperial – 30 g por 90€ ou 125 g por 350€;
- Goose Bumps com pairing de Grey Goose Altius – 40€;
- Couvert – 4,50€, com pão sourdough de trigo barbela, manteiga trufada e azeitonas;
- Ostra nacional ao natural – 4€ cada ou 22€ seis unidades;
- Taquito de lagosta – 12€, com guacamole, manga, lima e coentros;
- Panipuri com tártaro de atum – duas unidades, 16€, com molho kimchi e maionese de lima e gengibre;
- Pastel de massa tenra de pato – 7€, com gel de vinho do Porto;
- Steak Tartar Sando – duas unidades, 20€, com tártaro de novilho em pão brioche, stracciatella e mostarda;
- Gaspacho de melancia e poejo – 16€, com telha de sourdough, gema curada e queijo de cabra com 90 dias de cura;
- Tiradito de lírio – 18€, com leche de tigre de ají amarillo, creme de missô, tobiko yuzu e kizami wasabi;
- Camarão salteado com guanciale e malagueta – 22€, com molho de carabineiro e ervas;
- Salada de beterraba com queijo de Azeitão DOP – 18€, com uvas assadas, noz macadâmia e vinagrete de mostarda.
Há, portanto, uma carta difícil de encaixar numa única categoria. O queijo de Azeitão está lado a lado com o miso, o guanciale com o carabineiro e o pastel de massa tenra com o panipuri.
É precisamente aí que está a personalidade da cozinha: na diversidade e sabores que se destacam.

Dos clássicos portugueses ao Wagyu
Nos pratos principais, a variedade continua. O bife de atum grelhado, é servido com berbigão à Bulhão Pato, katsuobushi e puré de aipo.
O arroz “Al Cuadrado” com lagosta, para duas pessoas, junta arroz de forno, lagosta, amêijoa e alioli de coentros. Há depois o confit de bacalhau sobre brás de alho-francês, com cebola caramelizada, gema de ovo, batata palha e espuma de pil pil.
Também estão na carta o pregado em beurre noisette e migas de couve-flor, e o orzotto de beterraba e vieiras, com guanciale e molho de alcaparras.
Para quem prefere carne, o incontornável Bife à Barão custa 37€. É preparado com bife de vazia argentina, creme de cebola, jus de novilho, presunto ibérico e batata frita salteada com o (apurado) queijo de São Miguel.
Há ainda risotto de cogumelos aromatizado com caldo miso, por 25€, com shimeji salteado e pinhão torrado. A carta assinala a possibilidade de versão vegan. E o gnocchi de batata com stracciatella, pesto, pinhão e parmesão custa 26€.

Grelhados no carvão
Nesta secção entram sabores mais intensos.
O camarão-tigre, a 37€, chega com risotto de lima e coentros e tomate cherry confitado.
O yakitori de polvo com puré de grão fumado, por 32€, junta picadinho algarvio, alioli de chouriço e óleo de coentros.
A presa de porco preto alentejano Laborela, a 31€, é acompanhada por puré de cherovia, molho de mostarda à l’ancienne, mil-folhas de batata crocante e pickle de cebola-pérola.
Há ainda carré de cordeiro com batatas bravas, por 36€, com pimentão de La Vera e maionese de kimchi.
Para quem quer mesmo um corte de carne, a escolha pode recair na picanha de Wagyu, 300 g, por 58€, no entrecôte Angus, 300 g, por 40€, ou no corte do chef, com cerca de 1 kg, para duas pessoas, por 95€.
Os cortes são servidos com molho cremoso de trufa e molho chimichurri.
Nos acompanhamentos há batata frita, com opção de queijo de São Miguel, arroz de forno com enchidos de fumeiro, alface cogolho grelhada, com molho Caesar trufado e queijo de São Miguel, e feijão-verde redondo salteado, com vinagrete de sésamo.

E para sobremesa?
A carta de sobremesas também mantém essa mistura entre referências conhecidas e combinações mais trabalhadas.
A Mousse à Barão, por 10€, é uma mousse de avelã em camadas, com toffee, crocante de chocolate branco, avelã e mousse de crème fraîche.
Há crème brûlée de pistácio, com frutos vermelhos e pistácio, por 11€. Mas roubou.me a atenção (e o paladar!) a encharcada com sponge-cake de laranja, gelado de baunilha e crocante de amêndoa.
A Pavlova de ananás e hortelã, com sorbet de limão e hortelã, custa 9€.
Também há rabanada com creme de mascarpone e baunilha, acompanhada por redução de Moscatel, por 10€. Este é um doce que vai querer provar, acredite em mim!
Para quem não quer uma sobremesa pesada, existe fruta laminada, por 8€.
E há ainda um prato de queijos portugueses, por 13€, com queijo de ovelha curado, queijo de cabra curado, compota de tomate e tostas.
Nos gelados e sorbets, uma bola custa 6€, duas 8€ e três 9€. Os sabores indicados são baunilha, chocolate, pistácio, caramelo salgado, morango, limão e hortelã.

Menu Barão: o almoço do Palácio Chiado
Se a ideia for experimentar o restaurante ao almoço, há uma opção mais simples: o Menu Barão Executivo.
Custa 25€ e inclui entrada, prato principal, bebida e café. A sobremesa pode ser acrescentada por mais 4€. Está disponível nos dias úteis, entre as 12h30 e as 15h00.
Para entrada, pode escolher entre peixinhos da horta com maionese de alho e creme de legumes frescos.
Nos pratos principais há quatro opções: confit de bacalhau, tataki de atum, Bife à Barão e perna de pato confitada com risotto de cogumelos do bosque.
Na sobremesa, o menu apresenta mousse de chocolate com frutos vermelhos e crumble de amendoim ou fruta laminada.
É uma solução interessante para quem quer conhecer o restaurante sem entrar directamente na faixa de preços da carta.

Dez anos, dez pratos no Palácio Chiado
Em 2026 há ainda uma razão especial para passar pelo Palácio Chiado: o restaurante está a assinalar dez anos.
A comemoração está a ser feita através da recuperação de pratos que fizeram parte da história da casa. Em Junho, por exemplo, o chef André Pinto recuperou propostas de marisco, entre elas ovos rotos de camarão com molho de carabineiro e um arroz cremoso de carabineiro.
Em Julho, a proposta que aparece na carta especial “10 anos, 10 pratos” muda de direcção.
A entrada é uma salada de burrata com nectarina grelhada, tomate e frutos secos, por 10€.
O prato principal é um chirashi de atum, lírio e gema curada em soja e sésamo, por 29€.
É um daqueles menus que fazem sentido enquanto exercício de memória gastronómica: em vez de simplesmente criar um prato comemorativo, recuperam-se sabores de diferentes momentos da vida do restaurante.

Bar SALLA: quando o jantar dá lugar à noite
Não é preciso sair do edifício depois do jantar para continuar a noite. No piso térreo está o Bar SALLA, que recupera precisamente a ideia de festa associada ao passado do Palácio Quintela e ao famoso “farrobodó”.
De quinta-feira a sábado, o restaurante recebe música de DJs residentes, que funciona como uma espécie de introdução ao que acontece depois no bar. A própria casa resume a ideia de forma simples: jantar primeiro e ficar para dançar.
O SALLA tem cocktails de autor, clássicos reinterpretados, vinhos, destilados e petiscos para partilhar. A música deixa de ser apenas ambiente e passa a fazer parte da experiência.
O bar está aberto de quinta-feira a sábado, das 19h00 às 02h00.
É aqui que o nome Farrobodó ganha uma segunda vida. O termo nasceu associado às festas do Conde de Farrobo. Agora dá nome à noite de um espaço que ocupa o mesmo edifício.

Bar das Sabinas: o espaço mais reservado
Existe ainda o Bar das Sabinas, outro dos espaços do Palácio Chiado.
O ambiente é diferente do SALLA. Aqui a aposta está sobretudo nos cocktails, nos destilados e na experiência de bar. A casa apresenta-o como um espaço sem reservas, pensado para quem gosta de experimentar e descobrir bebidas menos convencionais. A carta inclui cocktails, vinhos, espumantes e petiscos.
É provavelmente o espaço mais indicado para quem prefere sentar-se a conversar e dedicar algum tempo ao que está no copo, em vez de procurar uma noite com música e dança. A selecção inclui também destilados raros e edições limitadas.
Assim, o mesmo edifício consegue ter três experiências distintas: restaurante, SALLA e Bar das Sabinas.

Informações práticas sobre o Palácio Chiado
Palácio Chiado
Morada: Rua do Alecrim, 70 – 1200-018 Lisboa, Portugal
Horários Restaurante:
Domingo a quarta-feira: 12h30–15h00 e 18h30–00h00
Quinta-feira a sábado: 12h30–15h00 e 18h30–02h00
Bar SALLA:
Quinta-feira a sábado: 19h00–02h00.
O Palácio Chiado recomenda confirmar a disponibilidade dos pratos e os horários no momento da reserva, uma vez que a carta e a programação podem mudar.
Site oficial do Palácio Chiado

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