Eating Europe em Londres: um tour gastronómico pela história de Spitalfields, Brick Lane e East End
Conhecer Londres através da comida pode ser uma excelente forma de chegar a lugares que contam histórias muito diferentes das dos grandes monumentos da cidade. No East End, cada rua parece acrescentar uma nova camada ao passado da capital inglesa: antigos hospitais, campos, mercados, tecelões, comunidades de imigrantes, restaurantes, arte urbana e comércio convivem numa área que mudou muitas vezes ao longo dos séculos.
Foi nesse cenário que fiz o East End Food Tour da Eating Europe, um passeio gastronómico que percorre Spitalfields, Brick Lane e Shoreditch e combina seis experiências gastronómicas com histórias sobre uma das zonas mais multiculturais de Londres. E ainda passamos por edifícios que são locais de rodagem de filmes e séries muito conhecidas, como “O Discurso do Rei”.



O tour tem uma duração de cerca de três horas e meia, inclui seis paragens para provar diferentes comidas e é apresentado pela Eating Europe – empresa com quem já fiz tours gastronómicos em Roma e Amesterdão – como uma experiência que junta gastronomia, história e street art. A empresa realiza o tour desde 2016 e eu não vou (obviamente!) divulgar tudo aqui. Têm mesmo de ir para perceberem como é um dois em um maravilhoso!
Mas, para perceber verdadeiramente este passeio, é preciso começar muito antes da primeira prova de comida. É preciso começar pelo próprio nome Spitalfields.

Spitalfields: afinal, de onde vem este nome?
É uma daquelas perguntas simples que ajudam a compreender imediatamente um lugar.
Spitalfields não recebeu este nome por acaso.
A origem está no St Mary Spital, um hospital e priorado fundado em 1197, junto a Bishopsgate, numa zona que na época se encontrava fora das muralhas da City de Londres.
“Spital” é uma forma antiga relacionada com a palavra “hospital”, enquanto “fields” significa “campos”. A combinação deu origem à designação Spital Fields, que mais tarde evoluiu para Spitalfields.
Ou seja, o nome que hoje associamos a um dos bairros mais interessantes do East End lembra-nos que este território foi, em tempos, uma área de campos junto de uma instituição religiosa e hospitalar.
O St Mary Spital chegou a ser uma importante instituição medieval. Foi dissolvido em 1539, durante o processo de dissolução dos mosteiros, no reinado de Henrique VIII. A zona, entretanto, continuaria a transformar-se. Os antigos espaços abertos começaram progressivamente a ser ocupados e o que eram campos nos limites da cidade deu lugar a um bairro urbano.
Há, portanto, quase mil anos de história escondidos numa palavra que hoje dizemos sem pensar.


Antes dos restaurantes, havia campos, um hospital e um grande mercado
A história de Spitalfields é ainda mais antiga do que o próprio bairro.
Investigações arqueológicas encontraram nesta área vestígios relacionados com a Londres romana, incluindo um importante espaço funerário. Mais tarde, foi a fundação de St Mary Spital que marcou profundamente o território.
Mas seria o comércio que acabaria por dar a Spitalfields uma das suas identidades mais fortes.
O mercado da zona tem uma história de séculos. O London Museum aponta para 1638 como o momento em que Spitalfields Market recebeu licença para vender produtos, incluindo carne, aves e raízes. Ao longo do tempo, o mercado foi crescendo e assumiu uma importância cada vez maior no abastecimento de Londres.
Hoje, o Old Spitalfields Market é um espaço completamente diferente daquele que existia há séculos. Mas a ideia fundamental mantém-se: este continua a ser um lugar de comércio e encontro.
A diferença é que, actualmente, em vez de encontrarmos apenas produtos destinados ao abastecimento da cidade, encontramos lojas, restauração, bancas e marcas de diferentes áreas.
É também aqui que começa o Eating Europe.


Os huguenotes e a seda que transformou Spitalfields
Uma das histórias mais importantes para compreender Spitalfields é a chegada dos huguenotes franceses.
Depois da revogação do Édito de Nantes, em 1685, muitos protestantes franceses deixaram o país. Entre eles encontravam-se artesãos especializados, incluindo tecelões de seda.
Muitos instalaram-se em Spitalfields e trouxeram consigo conhecimentos que transformariam a economia local.
A área tornou-se o grande centro da indústria da seda em Inglaterra. A presença dos tecelões huguenotes deixou marcas profundas na arquitectura, no comércio e na identidade do bairro.
Ainda hoje, caminhar por Spitalfields é encontrar vestígios dessa época.
Fournier Street e Princelet Street são particularmente importantes para perceber esta história. As casas georgianas que encontramos nestas ruas estão relacionadas com o desenvolvimento residencial do bairro durante o período em que a indústria da seda tinha enorme importância.
É por isso que Spitalfields merece ser percorrido a pé.
Se ficarmos apenas dentro do mercado, perdemos uma parte essencial da história.


Anna Maria Garthwaite: a mulher por detrás das sedas de Spitalfields
Entre os nomes ligados à indústria da seda de Spitalfields está Anna Maria Garthwaite, uma das mais importantes designers de sedas floridas da Inglaterra do século XVIII.
Garthwaite viveu e trabalhou no número 2 de Princelet Street, entre 1730 e 1763. A English Heritage explica que Spitalfields era então o centro da indústria da seda inglesa e que Garthwaite trabalhava directamente com mestres tecelões e comerciantes da região.
A sua antiga casa está assinalada por uma blue plaque da English Heritage.
É uma das paragens que vale a pena procurar se continuar a explorar Spitalfields depois do tour.
E há aqui uma curiosidade particularmente interessante: Garthwaite era uma mulher solteira que conseguiu construir uma carreira de grande sucesso numa actividade dominada por homens. Na década de 1730 e 1740 chegou a produzir dezenas de desenhos de sedas brocadas por ano.
Assim, quando caminhamos por Princelet Street, não estamos apenas a admirar casas antigas. Estamos a caminhar por uma das zonas onde se desenvolveu uma indústria que colocou Spitalfields no mapa económico de Londres.

Spitalfields Market: o mercado que mudou com a cidade
O mercado actual também é resultado de várias transformações.
A estrutura histórica que vemos hoje é classificada como Grade II e os edifícios principais foram construídos entre 1885 e 1893, segundo projecto do arquitecto George Sherrin, para Robert Homer, o último proprietário privado do mercado.
O edifício é, por isso, mais recente do que a própria história do mercado.
É uma distinção importante: o mercado existe há séculos, mas o conjunto arquitectónico histórico que vemos actualmente corresponde sobretudo à sua grande reconstrução vitoriana.
Durante muito tempo, Spitalfields foi particularmente associado ao comércio grossista de fruta e legumes. A actividade acabaria por ser transferida para Leyton em 1991, dando lugar a uma nova fase na história do espaço.
Hoje, o mercado é um dos pontos mais procurados de East London para comer, fazer compras e simplesmente passear.
E é também o ponto de partida do Eating Europe East End Food Tour.

Onde começa o Eating Europe East End Food Tour?
O tour da Eating Europe começa dentro do Old Spitalfields Market, onde é-nos feita uma introdução do que vamos provar. Aliás, as provas começam aqui. Vão com fome e espaço no estômago, porque são seis as paragens para comermos.
A primeira impressão pode ser a de que estamos simplesmente perante um food tour. Mas não!
A Eating Europe apresenta este percurso como uma experiência que permite conhecer a história multicultural do East End, incluindo a influência das comunidades huguenote, judaica e bangladeshiana. O percurso passa por Spitalfields, Brick Lane e Shoreditch e inclui também referências à arte urbana da região.
Então e a comida? Essa é, na verdade, o fio condutor. Cada prova ajuda a explicar uma parte da identidade actual do bairro.
E é precisamente isso que torna o passeio muito interessante e, por isso, o aconselho logo nos primeiros dias ou até no primeiro dia da vossa visita. Além do que vamos ver e provar, os guias são também poços sem fim de dicas sobre Londres, Aproveitem!


O que se come no Eating Europe?
O menu indicado actualmente pela Eating Europe inclui seis experiências gastronómicas.
Entre elas estão um bacon brioche bap, uma tarte de creme (é o nosso pastel de nata, talvez menos doce, mas igualmente bom!) de uma padaria chinesa, cod fish and chips com mushy peas, três caris acompanhados de arroz num dos mais conhecidos restaurantes de Brick Lane, um salt beef beigel de uma casa que está aberta 24 horas! E uma sobremesa sazonal… que deixo sem segredo! Mas é tudo muito bom!!!
O tour inclui ainda mango lassi e água. Mas, obviamente que as ofertas podem variar consoante o dia ou a época.
É uma combinação que permite experimentar diferentes dimensões da gastronomia do East End.
Há comida britânica, influências chinesas, cozinha indiana e bangladeshiana e a tradição judaica do beigel.
Tudo num percurso de poucas horas.


Brick Lane: uma rua que conta a história das migrações
Se há uma rua que representa a transformação do East End, essa rua é Brick Lane.
Actualmente, Brick Lane é conhecida pelos restaurantes, mercados, lojas vintage, arte urbana e ambiente multicultural.
Mas a sua identidade actual é resultado de várias comunidades que se foram estabelecendo na região.
Depois da influência dos huguenotes em Spitalfields, a presença judaica tornou-se particularmente importante no East End. Mais tarde, a comunidade bangladeshiana transformou profundamente Brick Lane e ajudou a fazer da rua um dos lugares mais conhecidos de Londres para comer curry.
A Eating Europe explora precisamente esta história durante o percurso. E é também em Brick Lane que o tour inclui uma das provas gastronómicas mais directamente relacionadas com essa história.

Curry e mango lassi em Brick Lane
Num dos restaurantes mais conhecidos de Brick Lane, provamos três caris acompanhados de arroz e mango lassi.
A paragem permite perceber como a gastronomia trazida por comunidades de imigrantes passou a fazer parte da identidade de Londres.
Hoje, falar de Brick Lane é quase inevitavelmente falar de curry. Mas essa associação não surgiu do nada. É o resultado de décadas de estabelecimento de famílias e negócios ligados à comunidade bangladeshiana, que transformaram a rua e a sua cultura gastronómica.
A comida, neste caso, não é apenas comida e é sobretudo uma forma de contar uma história de migração.

Beigel Bake e a memória judaica do East End
Outra das paragens é numa casa de bagels que está aberta 24 Horas onde o tour inclui um salt beef beigel.
A presença do beigel em Brick Lane está profundamente ligada à história da comunidade judaica do East End e à imigração judaica da Europa de Leste.
A comida tornou-se parte da identidade gastronómica da região e continua a ser uma das experiências mais reconhecidas de Brick Lane.
É interessante perceber como, numa mesma rua, diferentes comunidades deixaram marcas sucessivas na alimentação local.
Primeiro uma forte presença judaica. Depois uma crescente influência bangladeshiana. E, entretanto, novas gerações e novas tendências gastronómicas.
Brick Lane é quase uma pequena síntese da história migratória de East London.

Fish and chips: uma tradição britânica no meio da diversidade
O tour inclui também uma paragem num dos restaurantes mais conhecidos (e vencedor de vários prémios gastronómicos) por Fish and Chips. E foi onde provarmos cod fish (bacalhau!) and chips (batatas fritas) com mushy peas (puré de ervilhas).
É uma escolha interessante porque, no meio de todas as influências internacionais, surge um dos pratos mais associados à gastronomia britânica. E isso também faz parte da história do East End.
Por isso, é importante também salientar que a identidade gastronómica desta zona não é exclusivamente resultado da imigração nem exclusivamente da tradição britânica.
É a combinação das duas coisas – e de muitas outras que vamos abordando no tour – que tornou este bairro tão particular.

A arte urbana também faz parte do percurso
Entre uma prova e outra, é impossível ignorar a arte urbana. Brick Lane e Shoreditch tornaram-se referências internacionais de street art e a Eating Europe inclui esta dimensão no tour.
Há um destaque para alguns graffitis e pinturas e vestígios de uma obra original de Banksy no percurso. É mais uma camada de uma zona que está constantemente a reinventar-se.
O East End já foi território de campos, hospitais, tecelões, mercados e indústrias. Hoje, é também sinónimo de criatividade, restaurantes, moda, arte urbana e cultura contemporânea.


E olhe para o chão: os curiosos Spitalfields Roundels
Há uma curiosidade de Spitalfields que facilmente passa despercebida durante um passeio. São círculos metálicos embutidos nos passeios, muitos deles com desenhos.
À primeira vista, podem parecer antigas tampas de esgoto e/ou tampas de carvão, como existem noutras zonas históricas de Londres.
São conhecidos como Spitalfields Roundels e foram criados pelo escultor Keith Bowler. Em 1995, Bowler foi contratado no âmbito do projecto Bethnal Green City Challenge para pesquisar, desenhar e produzir 25 roundels relacionados com locais e histórias da região.
Os desenhos foram pensados para contar histórias de Spitalfields. É possível encontrar, por exemplo, referências ao antigo mercado de fruta e legumes e à tradição cervejeira da zona.
Há também um roundel relacionado com as matchgirls, as trabalhadoras das fábricas de fósforos cuja greve de 1888 ficou marcada na história do movimento laboral londrino.
E há uma curiosidade ainda melhor: durante algum tempo, circulou a ideia de que estas placas seriam peças do século XIX, colocadas para ajudar pessoas que não sabiam ler a identificar determinados locais. Mas, isso é falso.
O próprio Keith Bowler explicou que foi ele quem criou os roundels na década de 1990. Por isso, durante o Eating Europe, vale a pena fazer uma coisa muito simples: olhar para o chão.
Em Spitalfields e Brick Lane, há História não apenas nas fachadas, mas também debaixo dos nossos pés.

Shoreditch: a nova vida do East End
O percurso chega também a Shoreditch, outra área que representa bem a transformação do East London.
Com a Eating Europe incluímos Shoreditch juntamente com Spitalfields e Brick Lane e esta zona surge como parte do actual ambiente criativo do East End.
Aqui encontramos uma Londres mais contemporânea, marcada por arte urbana, restaurantes, lojas independentes e negócios criativos.
Mas a presença dessa nova Londres não apagou completamente o passado: é precisamente o contraste entre os edifícios antigos, a arquitectura industrial, a street art e os novos negócios que torna a caminhada tão interessante.

O que visitar depois do tour em Spitalfields?
Se o Eating Europe terminar e ainda tiver tempo para explorar a zona, faça como eu e visite mais alguns pontos em redor daquela área:
Fournier Street merece uma caminhada tranquila, sobretudo pela arquitectura georgiana associada à época dos tecelões de seda.
Princelet Street é igualmente importante. É aqui que se encontra a antiga casa de Anna Maria Garthwaite, no número 2, assinalada pela English Heritage.
A Christ Church Spitalfields, desenhada por Nicholas Hawksmoor, é outro edifício que merece ser visto.
Depois, siga para Brick Lane e percorra a rua com mais calma. Observe a arte urbana, as fachadas, as lojas e as pequenas ruas que a atravessam.
Se tiver tempo e conseguir conciliar com o horário de visita, a Dennis Severs’ House, em Folgate Street, é outra experiência interessante para quem quer aprofundar a história dos antigos tecelões de Spitalfields.

Como chegar a Spitalfields Market
Para chegar ao ponto de encontro do Eating Europe, uma das opções mais práticas é utilizar o metro até Liverpool Street, ficando depois com uma curta caminhada até ao Old Spitalfields Market.
Também pode utilizar Aldgate East, servida pelas linhas Hammersmith & City e District, e caminhar até Commercial Street. A estação fica na Whitechapel High Street.
Como as ligações e eventuais perturbações do metro podem mudar, vale a pena confirmar no próprio dia no Transport for London.

Vale a pena fazer o Eating Europe East End Food Tour?
Se procura apenas um roteiro para comer em Londres, existem muitas alternativas. Mas… se procura uma experiência que combine comida, história, imigração, arquitectura e arte urbana, o Eating Europe East End Food Tour é bastante mais interessante.
O grande mérito está precisamente em mostrar que os pratos que encontramos hoje em East London não apareceram por acaso.
O beigel conta uma história judaica.
O curry conta uma história bangladeshiana.
A seda conta a história dos huguenotes.
O mercado conta a história do comércio.
Os roundels contam pequenas histórias espalhadas pelos passeios.
A street art mostra uma nova fase da identidade do bairro.
E Spitalfields, pelo próprio nome, recorda-nos que tudo começou muito antes: num hospital medieval rodeado de campos.
É isso que torna esta experiência diferente de simplesmente visitar um mercado ou procurar um restaurante em Brick Lane.
Ao longo de três horas e meia, percorremos uma pequena parte de Londres, mas atravessamos séculos de história.
Começamos nos campos de St Mary Spital, passamos pela indústria da seda dos huguenotes, conhecemos as marcas deixadas pelas comunidades judaica e bangladeshiana, provamos comida que nasceu dessas diferentes influências e chegamos a um East End contemporâneo, onde a arte urbana e a criatividade convivem com edifícios históricos.
No fundo, o Eating Europe é um tour gastronómico, mas Spitalfields é o verdadeiro prato principal. Depois do tour vai olhar com outros olhos para as casas, a arquitectura, as fachadas, a arte das ruas…e perceber como a história local também se conta através da comida!

INFORMAÇÕES
Tour: Eating Europe – London East End Food Tour
Duração: cerca de 3 horas e 30 minutos
Horários: verificar no site da Eating Europe
Paragens gastronómicas: 6
Zonas: Spitalfields, Brick Lane e Shoreditch
Grupo: máximo de 12 pessoas
Ponto de encontro: será enviado numa mensagem, após a reserva
Dietas: o tour é indicado como vegetariano, mas as opções vegan, sem glúten ou kosher podem ser limitadas. As restrições alimentares devem ser comunicadas no momento da reserva.
Chegada: é recomendado chegar 15 minutos antes da hora marcada. Para transportes públicos, Liverpool Street e Aldgate East são opções práticas para chegar à zona.
Nota: as informações sobre horários, menu e condições do tour podem mudar, pelo que devem ser confirmadas no site da Eating Europe antes da visita.

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