“As viagens são a minha vida” Susana Ribeiro no podcast Conversas do Fim do Mundo, do Observador
Viajar pode começar muito antes de se fazer a primeira mala. Pode começar na imaginação, nas histórias inventadas sobre lugares ainda desconhecidos, no desejo de perceber o que existe para lá do horizonte.
Para Susana Ribeiro (doutora do ViajeComigo.com), essa vontade de conhecer o Mundo esteve presente desde cedo, mas só mais tarde encontrou na viagem uma forma de vida.
Numa conversa no podcast Conversas do Fim do Mundo, do Observador, a jornalista falou sobre viagens a solo, segurança, encontros com outras culturas, histórias insólitas e sobre a forma como viajar acabou por se transformar no centro da sua vida profissional e pessoal.
Susana considera-se uma “viajante tardia”. Antes de começar efetivamente a viajar, já gostava de inventar histórias sobre lugares que não conhecia. E havia também, desde criança, uma relação muito próxima com a escrita: aos oito anos recebeu uma máquina de escrever depois de transformar uma caixa registadora de brincar numa imaginária máquina de escrever. Ainda hoje a conserva.

A escrita e as viagens acabariam por se encontrar
Susana conta que sempre gostou de contar histórias, até sobre situações banais do quotidiano, mas foi a independência económica que lhe permitiu começar a viajar mais.
A chegada das companhias aéreas low cost ao Porto também ajudou a tornar possíveis as primeiras viagens, incluindo algumas feitas sozinha. Primeiro vieram destinos europeus, como França, Espanha, Reino Unido, e depois o mapa foi-se alargando, ao mesmo tempo que a atividade jornalística ligada às viagens lhe abriu novas portas.
Uma das ideias mais fortes da conversa é precisamente a relação entre viajar sozinha e ultrapassar medos, muito a propósito do livro “Viajar Sozinha” da autoria de Susana Ribeiro.
Susana reconhece que existem receios legítimos, sobretudo no caso das mulheres, mas defende que não devem transformar-se numa razão para deixar os destinos de sonho eternamente adiados.

A experiência que acumulou como líder de viagens e através de um workshop dedicado a viajar sozinha levou-a a perceber que os medos variam muito de pessoa para pessoa: podem estar relacionados com não falar inglês, jantar sozinha ou simplesmente com a sensação de estar sem companhia.
A sua proposta é começar por pequenos passos. Se jantar sozinho num país distante parece demasiado desconfortável, porque não experimentar primeiro perto de casa?
Ir ao cinema sozinho, jantar sozinho ou fazer outras atividades sem companhia pode ser uma forma de ganhar confiança. Como explica na entrevista, aprender a desfrutar da própria companhia é importante não apenas para viajar, mas para a vida em geral.
Isso não significa ignorar os riscos.
Susana admite ter passado por alguns sustos e lembra que viajar exige atenção. Ao mesmo tempo, acredita que é possível ter cuidado sem deixar que o medo domine a experiência.
Dá como exemplo uma regra simples: os cuidados que temos no nosso quotidiano devem continuar a existir quando viajamos. Atenção ao telemóvel, aos objetos de valor e à forma como nos apresentamos num determinado destino fazem parte dessa preparação.
“Que os nossos medos não nos impeçam de vivermos as coisas”, resume.
É também esta atitude de curiosidade que parece definir a forma como Susana Ribeiro olha para os lugares que visita. Em vez de chegar a um país com ideias preconcebidas, prefere procurar as razões históricas e sociais que ajudam a explicar aquilo que encontra.
Fala do Irão, de Marrocos e de outros destinos frequentemente associados a determinados estereótipos e defende que é necessário conhecer melhor as sociedades antes de fazer julgamentos.
No Irão, por exemplo, recorda o encontro com um homem que convidou o pequeno grupo que acompanhava a visitar a sua casa e provar o vinho que produzia. A situação acabou por não se concretizar, mas ficou como uma dessas experiências que tornam uma viagem mais rica.
Para Susana, estes encontros ajudam a perceber que existe uma diferença entre aquilo que imaginamos sobre um país e aquilo que encontramos quando convivemos com as pessoas que lá vivem.

Marrocos é outro dos países sobre os quais fala com particular entusiasmo. Diz conhecer o país profundamente, não apenas por ter visitado diferentes cidades, mas também por ter criado relações com pessoas que lá vivem.
É essa proximidade que, segundo explica, permite ir além da imagem turística mais imediata. Para ela, viajar passa por compreender como vivem as pessoas e por ouvir as suas histórias.
Essa vontade de conversar com os habitantes locais aparece várias vezes ao longo da entrevista. Susana admite que é frequentemente a pessoa que fica para trás enquanto o grupo avança, simplesmente porque está a conversar com alguém. “Eu ficava por mim, ficava aqui o dia inteiro a falar com estas pessoas”, diz, recordando um episódio recente.
As viagens também deixam episódios difíceis de esquecer. Alguns são divertidos, outros nem tanto. Conta, por exemplo, a vez em que foi impedida de levar a mala de mão para dentro de um avião e acabou por regressar à porta quando esta já estava fechada.
Sem conseguir chamar a atenção das hospedeiras, acabou por bater na janela do piloto para explicar que a tinham “fechado” do lado de fora.
Noutra viagem, em Maiorca, foi assaltada sem se aperceber e, no mesmo dia, apanhou chuva e perdeu o controlo do carro. Na altura só lhe apetecia chorar; hoje consegue rir-se da sucessão improvável de acontecimentos.
Nem todas as histórias têm, porém, um lado engraçado. Em São Tomé, Susana teve uma experiência desagradável com uma pulga de areia que lhe deixou dois dedos dos pés a pedir curativos médicos.
O episódio serve também para reforçar uma das características que atravessa toda a conversa: a sua preocupação em transmitir informação útil a quem viaja.
Não pretende criar medo, mas sim alertar para aquilo que pode acontecer e para a importância de estar atento mesmo depois do regresso.
Ao longo dos anos, Susana visitou 75 países e repetiu alguns deles várias vezes. Índia, Japão, Sri Lanka, Marrocos e Islândia estão entre os destinos que mais a marcaram.

Escolher apenas um país favorito parece ser uma tarefa impossível
Quando lhe perguntam para onde viajaria se pudesse escolher imediatamente um país que ainda não conhece, a resposta é Argentina. E quando a pergunta muda para o país onde gostaria de viver fora da Europa, escolhe o Brasil.
A relação com o Brasil explica-se, em grande parte, pela diversidade. Susana já conheceu diferentes regiões e estados brasileiros e destaca precisamente a existência de “muitos mundos” dentro do mesmo país.
Fala da Amazónia, do Rio Grande do Sul e da Bahia, território que considera especialmente rico pela cultura, pela música e pelas pessoas. Para ela, reduzir o Brasil a um destino de praia é perder grande parte daquilo que o país tem para oferecer.
No fundo, a conversa regressa sempre à mesma ideia: viajar é muito mais do que acumular destinos. É observar, perguntar, ouvir, estudar e tentar compreender. É aceitar que uma viagem pode não correr como previsto e, ainda assim, transformar-se numa boa história.
É guardar objetos trazidos de outros lugares para prolongar a viagem em casa, como as pinturas que Susana compra a artistas locais. E é continuar a ter vontade de partir.
Quando lhe perguntam o que o mundo e as viagens lhe ensinaram, a resposta é simples e resume boa parte do percurso contado nesta entrevista: “tem me ensinado a viver”.
Susana explica que tudo gira atualmente à volta das viagens: lidera grupos, escreve, faz workshops e criou o próprio caminho profissional através do site Viaje Comigo.
Houve um momento em que percebeu que o emprego que queria talvez não existisse ou ainda não tivesse chegado até ela. A solução foi criá-lo.
E aqui fica a história de Susana Ribeiro: não apenas uma história de alguém que já conheceu muitos países, mas como a de uma jornalista que encontrou nas viagens uma forma de continuar a contar histórias.
Histórias de lugares, de pessoas, de encontros inesperados e também de pequenos desastres que, com o tempo, se transformam em memórias. Porque, para quem faz da viagem uma profissão e uma paixão, o destino nunca é apenas o ponto onde o avião aterra. É tudo aquilo que vai acontecer com a nossa passagem e com os nossos encontros.



