Ketut: o curandeiro de Comer Orar Amar, em Ubud, Bali
Quem é (ou foi) Ketut Liyer: o curandeiro de Comer, Orar, Amar, cujo legado ainda podemos encontrar na sua casa em Ubud, na ilha de Bali, Indonésia. Poucos nomes estão tão ligados à imagem espiritual de Bali como Ketut Liyer. Para milhares de viajantes, especialmente mulheres que visitam Ubud em busca de autoconhecimento, o nome tornou-se conhecido através do livro e do filme Comer, Orar, Amar (Eat Pray Love), protagonizado por Julia Roberts e baseado na obra autobiográfica de Elizabeth Gilbert.
Embora Ketut Liyer tenha falecido em 2016, o seu legado continua vivo em Ubud. A casa onde recebia visitantes continua aberta, a família mantém a propriedade e o seu filho continua a realizar consultas para quem procura orientação espiritual, leituras da palma da mão e contacto com uma das histórias mais famosas da ilha.
Para quem visita Bali pela primeira vez, vale a pena perceber quem foi realmente Ketut Liyer, qual a sua importância para Ubud e o que é possível encontrar atualmente no local. Depois de muitos anos a visitar Ubud, decidi acompanhar algumas das minhas viajantes e fui visitar o filho de Ketut (I Nyoman Latra).

Quem foi Ketut Liyer?
Ketut Liyer era um balian, termo balinês utilizado para designar curandeiros tradicionais. Ao longo da vida ganhou reputação como praticante de medicina tradicional balinesa, interpretação espiritual, astrologia local e leitura da palma da mão.
Muito antes de se tornar conhecido internacionalmente, era uma figura respeitada na comunidade de Pengosekan, uma aldeia situada nos arredores de Ubud. Recebia habitantes locais para consultas relacionadas com saúde, espiritualidade e orientação de vida.
A fama mundial chegou em 2006, quando a escritora norte-americana Elizabeth Gilbert publicou o livro Eat Pray Love. Na obra, a autora relata um ano sabático passado entre Itália, Índia e Indonésia após um período difícil da sua vida pessoal.
Foi em Bali que conheceu Ketut Liyer.
Segundo o livro, o curandeiro fez várias previsões sobre a sua vida e ajudou-a a encontrar equilíbrio emocional durante a estadia em Ubud. A história tornou-se um fenómeno editorial mundial e transformou Ketut numa celebridade improvável – até porque aparece no filme!
Quando o filme estreou em 2010, com Julia Roberts no papel principal, milhões de espectadores passaram a associar Bali à procura de significado, espiritualidade e transformação pessoal. Ubud passou a receber uma nova vaga de visitantes atraídos pelo chamado “turismo espiritual”.

O que representa Ketut Liyer para quem nunca viu o filme?
Mesmo para quem nunca leu o livro ou viu o filme, Ketut Liyer representa uma das figuras que ajudaram a criar a imagem internacional de Ubud como destino de bem-estar e crescimento pessoal.
No imaginário de muitos viajantes, ele simboliza:
- a sabedoria tradicional balinesa;
- a ligação entre espiritualidade e vida quotidiana;
- a procura de equilíbrio interior;
- a cultura dos curandeiros tradicionais de Bali;
- a hospitalidade balinesa.
Importa referir que a visão apresentada em Comer, Orar, Amar é uma interpretação pessoal de Elizabeth Gilbert e não representa necessariamente toda a complexidade da cultura espiritual balinesa.
Ainda assim, o impacto do livro foi enorme e contribuiu para colocar Ubud no mapa turístico mundial.

A explosão de visitantes após “Eat Play Love”
Depois da publicação do livro e, mais tarde, da estreia do filme, começaram a formar-se filas à porta da casa de Ketut Liyer.
Viajantes de todo o mundo procuravam uma consulta semelhante à descrita por Elizabeth Gilbert.
Segundo relatos da época, dezenas de visitantes passavam diariamente pela propriedade para ouvir previsões, receber aconselhamento ou simplesmente tirar uma fotografia com o famoso curandeiro.
Durante anos, visitar Ketut tornou-se uma das atividades mais populares em Ubud.
Muitas pessoas não procuravam necessariamente respostas espirituais profundas. Algumas iam apenas por curiosidade ou para conhecer um dos locais mais emblemáticos do livro.
Outras procuravam efetivamente orientação durante momentos de mudança, divórcio, transições profissionais ou viagens de autodescoberta.

A morte de Ketut Liyer
Ketut Liyer faleceu em junho de 2016. Na altura, a família confirmou que tinha aproximadamente 100 anos de idade. Nos últimos anos de vida enfrentou problemas de saúde e foi gradualmente reduzindo a atividade profissional.
Após a sua morte, muitos admiradores regressaram à casa para prestar homenagem.
Elizabeth Gilbert publicou também uma sentida mensagem de despedida, recordando o homem que a inspirou e ajudou durante a sua permanência em Bali. Mas a história não terminou aí.
O filho de Ketut Liyer continua a fazer consultas
Antes da sua morte, Ketut passou os conhecimentos da família ao filho, I Nyoman Latra.
Segundo várias fontes, foi o próprio filho quem assumiu gradualmente as consultas e tratamentos quando o pai começou a perder capacidades físicas devido à idade avançada.
Hoje, muitos visitantes continuam a deslocar-se à propriedade para consultas com o filho.
Que tipo de consultas são realizadas?
As consultas atualmente disponíveis seguem a tradição familiar e podem incluir:
Leitura da palma da mão
É provavelmente a consulta mais procurada.
O visitante apresenta as mãos e recebe interpretações relacionadas com personalidade, tendências de vida, desafios e oportunidades futuras.
Esta prática ficou mundialmente conhecida através da experiência relatada por Elizabeth Gilbert.
Orientação espiritual
Muitas pessoas procuram aconselhamento relacionado com:
- relacionamentos;
- decisões profissionais;
- mudanças de vida;
- equilíbrio emocional;
- crescimento pessoal.
As sessões costumam combinar elementos da tradição balinesa com interpretação intuitiva.
Tradições de cura balinesas
Historicamente, a família Liyer esteve ligada às práticas tradicionais de cura de Bali.
No entanto, é importante compreender que estas consultas não substituem acompanhamento médico nem devem ser vistas como tratamento clínico. E duram apenas alguns minutos.

Vale a pena fazer uma consulta?
A resposta depende da expectativa de cada viajante. Quem procura uma experiência ligada à história de Comer, Orar, Amar normalmente considera a visita interessante.
Quem espera previsões exatas sobre o futuro poderá sair desapontado. Tudo está relacionado com as expectativas.
A maioria dos visitantes descreve a experiência como uma conversa espiritual e cultural, mais próxima de uma reflexão pessoal do que de uma consulta tradicional ocidental.
Muitos viajantes encaram a experiência como uma oportunidade para desacelerar e pensar sobre a própria vida num ambiente profundamente ligado à cultura balinesa.
Onde fica a casa de Ketut Liyer?
A propriedade situa-se em Pengosekan, uma das zonas mais conhecidas de Ubud. A localização encontra-se a poucos minutos do centro da cidade e relativamente próxima da área da Floresta dos Macacos (uns 30 minutos a caminhar).
A aldeia de Pengosekan mantém parte do ambiente tradicional que caracterizava Ubud antes do crescimento explosivo do turismo.
Apesar da urbanização crescente, ainda é possível encontrar templos familiares, pequenas galerias de arte e alguns campos de arroz nas imediações.

Existe alojamento na propriedade?
Sim, a família desenvolveu ao longo dos anos um pequeno alojamento para visitantes. O local é frequentemente conhecido como Liyer House ou Liyer Spirit House.
A experiência é bastante diferente dos grandes resorts de luxo que dominam algumas áreas de Ubud. Quem escolhe ficar aqui procura sobretudo:
- ambiente familiar;
- proximidade à história de Eat Pray Love;
- contacto com a cultura balinesa;
- atmosfera tranquila;
- jardins e arquitetura tradicional.
Segundo relatos recentes de hóspedes, vários quartos foram renovados nos últimos anos, mantendo porém a identidade do espaço.
Como é a experiência de ficar na Liyer House?
Para muitos viajantes, a estadia vale mais pela atmosfera do que pelo luxo. A propriedade funciona como um complexo familiar balinês tradicional.
Existem pequenos templos, jardins tropicais, esculturas religiosas e áreas comuns onde é possível observar o quotidiano da família. Ao contrário dos hotéis internacionais, aqui a experiência é muito mais ligada à vida local.
Durante certas épocas do ano, os hóspedes podem assistir a cerimónias religiosas ou ver as tradicionais oferendas colocadas diariamente nos altares familiares.
É precisamente este ambiente autêntico que atrai muitos leitores e admiradores de Comer, Orar, Amar.
Visitar ou não visitar?
Para fãs do livro ou do filme, a resposta é simples: sim. A casa de Ketut Liyer continua a ser um dos locais mais emblemáticos da história de Comer, Orar, Amar.
Para quem nunca ouviu falar dele, a visita oferece uma perspetiva interessante sobre uma das figuras que contribuíram para tornar Ubud famoso em todo o mundo.
Mais do que procurar previsões sobre o futuro, talvez o verdadeiro valor da visita esteja em compreender uma tradição cultural balinesa que sobreviveu durante gerações e continua viva através da família Liyer.
Mesmo após a morte de Ketut, o seu legado permanece presente nas ruas de Ubud, nos viajantes que continuam a chegar em busca de respostas e na pequena casa de Pengosekan onde tudo começou. Para muitos visitantes, esse local representa não apenas uma atração turística, mas um símbolo da ligação entre viagem, autoconhecimento e transformação pessoal que tornou Bali um dos destinos mais fascinantes do mundo. E isso torna o local muito especial!



