Bonança Lisboa: uma viagem gastronómica no coração de Belém
A cidade de Lisboa tem vários restaurantes com vista para o rio mas poucos conseguem fazer com que essa vista seja uma extensão natural da experiência gastronómica. Por isso, em destaque fica o restaurante Bonança, que está localizado na histórica Associação Naval de Lisboa, em Belém. E, aqui, a vista é como uma entrada… para uma experiência culinária única e uma viagem à mesa do restaurante.

O Bonança está instalado no clube náutico mais antigo de Portugal e da Península Ibérica. Fundado em 1856 sob o nome Real Associação Naval, o restaurante encontra no Tejo muito mais do que um cenário. O rio está presente em toda a identidade da casa: na inspiração da cozinha, na ligação à história marítima portuguesa, na decoração e, sobretudo, naquilo que chega diariamente da costa nacional para a mesa.
A recente renovação da carta, da equipa liderada pelo chef Pedro Amendola, marca uma nova fase do restaurante. Mais do que uma mudança de menu, trata-se de uma afirmação clara daquilo que o Bonança quer ser: um restaurante profundamente ligado ao mar português, à sazonalidade e ao respeito pelo produto.
Etimologia Bonança:
provém do latim bonacia, um termo próprio do mundo marinho que faz referência ao estado tranquilo do mar, sem ondas e com pouco vento.


Uma localização privilegiada: no coração de Belém
A Associação Naval de Lisboa tem um património impressionante. Fundada sob a proteção de D. Pedro V, desempenhou um papel fundamental na promoção da vela em Portugal, na organização de regatas e até na introdução da canoagem no país. Ao longo dos anos recebeu várias distinções, incluindo a Ordem do Infante D. Henrique.
Hoje, esse legado serve de enquadramento a um restaurante que encontrou, de certa forma, uma maneira inteligente de honrar o passado sem ficar preso a ele. Aliás, a modernidade está presente de variadas formas.
Com dois pisos, diferentes ambientes e uma ampla esplanada, o restaurante Bonança aproveita ao máximo a sua localização junto à Doca de Belém. Da sala avistam-se o Tejo, o Padrão dos Descobrimentos e o constante movimento das embarcações que continuam a dar vida à zona ribeirinha.
Durante a minha visita, o piso inferior – na esplanada junto ao rio – acolhia um evento privado, o que acabou por trazer ainda mais dinâmica ao ambiente (mas não deixem de visitar as outras salas, que não consegui fotografar, pois são muito bonitas!). No piso superior, o cenário era particularmente agradável. A vista acabava inevitavelmente por roubar atenções entre pratos, conversas e cocktails deliciosos.


Pedro Amendola: uma cozinha que olha o mar
À frente da cozinha está Pedro Amendola, chef brasileiro formado em Tecnologia da Gastronomia pela Universidade Católica de Santos.
O percurso profissional explica muito da maturidade da cozinha que, hoje, apresenta em Lisboa. Passou por algumas das cozinhas mais respeitadas do Brasil, incluindo o Evvai, distinguido com duas Estrelas Michelin, onde desempenhou funções de sous-chef, entre 2017 e 2020.
Mais tarde, integrou o Corrutela, restaurante distinguido com uma Estrela Verde Michelin, chegando ao cargo de chef executivo. Em 2024 assumiu ainda a liderança gastronómica do Reia Collective e da Casa Reia, além de ter passado pelo Arkhe, restaurante com uma Estrela Michelin.
Toda essa bagagem é perceptível no Bonança, mas sem excessos de técnica ou apresentações que se sobreponham ao sabor. Aqui, a cozinha procura valorizar o produto acima de tudo.
Como o próprio chef faz questão de frisar, a nova carta representa uma evolução natural: mais fresca, mais direta, mais próxima do mar e construída sobre uma base clássica portuguesa enriquecida por detalhes contemporâneos.


A nova montra de peixe e marisco
Um dos elementos mais marcantes desta nova fase é a montra de peixe e marisco.
Longe de ser apenas um detalhe decorativo, funciona quase como um manifesto gastronómico.
Todos os dias chegam exemplares diferentes, selecionados de acordo com a sazonalidade e a disponibilidade da costa portuguesa. Dependendo da pesca do dia, podem surgir pregado, dourada, robalo, linguado, salmonete, pargo ou cantaril. Entre os mariscos, destacam-se opções como carabineiro, camarão tigre, percebes, polvo e camarão de Espinho.
É uma abordagem que transmite transparência e confiança. Antes mesmo de escolher um prato, o cliente é convidado a observar a matéria-prima que dará origem à refeição.
Numa época em que muitos restaurantes falam de frescura e produto local, o Bonança opta por mostrar o produto sem filtros.


Entradas que revelam a identidade da casa
A refeição começou com um couvert composto por pão de massa mãe, manteiga de cabra e presunto ibérico. Seguiram-se várias entradas para partilhar:
O Lírio dos Açores com água de tomate, uva e pinhão destacou-se imediatamente pela frescura e pelo equilíbrio. Um prato delicado, elegante e extremamente bem executado.
A Burrata com vinagrete de romã e pistácio revelou-se igualmente surpreendente. A doçura da romã e a textura do pistácio criam um contraste interessante com a cremosidade da burrata, resultando numa entrada leve e muito adequada para os meses mais quentes.
O Trio de Croquetes, servido com um mix de mostardas, trouxe uma dimensão mais descontraída à refeição, sem perder qualidade técnica e um sabor delicioso.
A carta inclui ainda outras opções ligadas ao mar, como o crudo de lírio dos Açores, o carpaccio de atum rabilho, ostras com vinagrete, amêijoas à Bulhão Pato, gambas à guilho, salada de polvo ou lobster roll.


O mar como protagonista
Se há algo que define a nova carta do Bonança é a forma como o mar assume o papel principal.
Os produtos chegam diariamente da costa portuguesa e a cozinha procura interferir o mínimo possível no seu sabor natural.
Entre os pratos mais representativos encontram-se o bife de atum, o polvo, a tranche de peixe do dia grelhado e diversas propostas que mudam consoante a disponibilidade do mercado.
Durante a visita foi impossível não reparar em noutras apelativas sugestões da carta, como o Arroz Malandro de Carabineiro & Limão, um dos pratos emblemáticos da casa, ou os peixes frescos expostos na montra, entre os quais se destacavam exemplares de pregado, dourada e carabineiro.
Tudo transmite a sensação de proximidade ao mar e de respeito absoluto pela matéria-prima.


Os pratos principais que chegaram à mesa
Para prato principal, optámos por duas propostas bastante diferentes:
O Arroz Malandro de Lingueirão confirmou a reputação que os arrozes da casa têm vindo a conquistar. Cremoso, intenso e profundamente ligado ao sabor do mar, apresenta o equilíbrio certo entre textura e concentração de sabores.
Percebe-se facilmente porque o arroz continua a ser um dos pilares da identidade gastronómica do restaurante.
O outro prato escolhido foi a a Vazia Angus Argentina, com 20 dias de maturação.
Num restaurante tão orientado para o peixe e marisco, poderia parecer uma escolha secundária. Não foi o caso.
A carne revelou excelente qualidade, ponto de confeção correto e sabor profundo. Os acompanhamentos – batata e legumes – mostraram-se igualmente bem confecionados, contribuindo para um prato harmonioso e completo.
E um detalhe importante: embora o mar seja claramente protagonista, o Bonança não esquece os clientes que procuram boas opções de carne.

Sobremesas que encerram a viagem
A carta de sobremesas mantém o mesmo equilíbrio entre tradição e criatividade.
Entre as propostas disponíveis destaca-se a Mousse de Matcha, Figo Fumado e Amêndoas, uma combinação invulgar que desperta curiosidade.
Ainda que sejam muito atrativas, a nossa escolha, contudo, recaiu sobre o Pão de Ló com azeite, flor de sal e gelado de laranja.
Foi um final feliz para a refeição.
O pão de ló apresentava uma textura húmida e delicada, enquanto o azeite e a flor de sal exaltavam os sabores e acrescentavam profundidade. O gelado de laranja introduzia frescura e acidez suficientes para equilibrar a doçura.
Uma sobremesa que consegue ser simultaneamente portuguesa, histórica, contemporânea e… que se tornou memorável!

Menu executivo em Belém por 28 euros
Outro ponto relevante para quem trabalha ou circula regularmente por Belém é o menu executivo.
Está disponível de segunda a sexta-feira ao almoço, exceto feriados e datas festivas, e inclui couvert, prato principal, bebida e café pelo valor de 28 euros.
Uma vez que a oferta gastronómica da zona tem vindo a crescer significativamente, trata-se de uma proposta diferente para quem procura uma refeição num ambiente privilegiado.
O Bonança consegue aquilo que muitos restaurantes ambicionam e poucos alcançam: criar uma ligação coerente entre espaço, conceito e cozinha.
A localização na Associação Naval de Lisboa não é um mero argumento. A história marítima do edifício, a proximidade ao Tejo e dos locais históricos de Belém encontram continuidade numa carta que olha para o mar com respeito e inteligência.
A nova fase liderada por Pedro Amendola reforça precisamente essa identidade. A montra de peixe e marisco, os arrozes, a aposta no produto fresco da costa portuguesa e a simplicidade elegante da execução fazem do Bonança uma das moradas gastronómicas mais interessantes de Belém neste momento.
É um restaurante onde a viagem começa na paisagem, passa pelo produto exposto na montra e termina à mesa. E, tal como acontece com as melhores viagens, deixa vontade de regressar.


INFORMAÇÕES
Restaurante Bonança
Morada: Associação Naval de Lisboa – Doca de Belém, Lisboa 1400-038, Portugal
Horário: segunda a quinta-feira, das 12h00 às 00h00; sexta-feira a sábado, das 12h00 às 02h00; domingo, das 12h00 às 16h00
Telefone: +351 916 884 669
E-mail: reservas@bonanca.pt
Site






